O começo de tudo.

No início... Bem no início de minha caminhada, me fora apresentada uma tal de leitura. Me enrolei em seus sentidos, e debruçada diante de todas as brilhantes maravilhas que me proporcionava, eu me mantive. Quando senti, longinquamente o consciente exigir mais, me ergui e me pus a desbravar um mundo de curiosidades. Tropecei em uma técnica de expressão chamada escrita. Desde então, passei a aderi-la.
Foi quando decidi, obstinadamente, que esta deveria ser o meu refúgio particular. E de lá para cá, confesso, venho realizando descobertas inimagináveis. A prática contínua da escrita, me fez adentrar e conhecer mundos dos mais variados tipos que existem. Só então percebi que não se pode limitar a imaginação. É tudo muito maior do que se parece. E abusando disto que chamo de dom, cheguei à seguinte conclusão: Ler, não é somente adquirir conhecimento; Escrever, é mais do que dar rumo ou designar acontecimentos, é possuir o controle do mundo e ter o poder de fazer deste, o que quiser.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Parque Dos Esquecidos


Sentia-me cansada, talvez um pouco tensa. Via que a solução para um bom descanso e algumas horinhas de paz e silencio, era ir ao que eu chamava de parque não freqüentado.
Lá tinha tudo o que eu mais gostava: árvores, lagos, plantas e muito, mas muito verde.  Embora eu ainda não compreendesse ao certo o porquê de a prefeitura ter proibido tantas visitas. Era um lugar agradável, afinal.
Já não agüentava mais barulho de máquinas, motores. Sentia-me enjoada quando me punha a pensar em como aquilo me dominada dentro daquela fábrica.

Dia 12/10/05, 18h00. Era véspera do feriado nacional. Saía mais cedo do trabalho, determinada a fazer um percurso diferente dessa vez.
Sem pressa, deixei a fábrica, indo em direção a uma estação de ônibus. Tomei um ônibus tendo como destino, a Praça Albuquerque Boulevard, onde em seu centro, apinhava-se o parque mais frequentado na década de 80, conhecido como O Parque Dos Esquecidos. Não me pergunte, pois também não sei o porquê do nome. Dizem que o motivo é sua beleza tão contemplante e majestosa que nos faz ter quase que um tipo de amnésia quando se tratava dos problemas e preocupações diárias. Complicado de explicar... e entender. Pois bem. De todo modo, devo confessar: amava aquele lugar. Era excepcionalmente arborizado; As árvores muito bem apinhadas e organizadas... cheio de cor e vivacidade. E o melhor de tudo, era tranquilíssimo. Coisa que definitivamente me atraía.

Sem muito chamar a atenção, caminhei em passos lentos até a entrada. Fingi estar observando o canto de ramos florais que havia em frente ao gigante portão do parque. Percebi a distração do guarda e entrei sem que ele percebesse.

“Que bem estar, é outro mundo!”
Aqui me sinto bem, me sinto em casa. Longe de qualquer problema ou tipo de confusão. Permaneci com um leve sorriso no rosto.

“Não entendo. Porque proibir a entrada das pessoas em um lugar como este?”, pensei e sorri inconformada.

Caminhei por entre as árvores, as águas, sob a relva. Apreciando a amplitude esverdeada que me rodeava. Devo lhes dizer, que perdi totalmente a noção da hora. Tudo ali parecia prender minha atenção. Caminhei, seguindo na direção do lago – denominado o mais bonito e limpo da região – sua água era verdinha e cristalina. Acomodei-me em algum lugar em sua beira, debaixo de uma árvore imensa que ali encontrava-se. Era tudo observá-lo!
Sentia-me em paz. Ouvia apenas o barulho das águas a minha frente, o cantar dos pássaros que por ali passeavam e o leve e doce murmúrio das árvores e do vento que soprava lentamente sobre meu rosto carrancudo e cansado.

Devia estar realmente muito cansada, pois não demorei muito e adormeci.
Assustada, despertei. Céus! Já eram 23h00! Levantei-me apressadamente, corri até a entrada do parque. Não avistei ninguém. Procurei algum responsável pela segurança do parque, mas ninguém. Tentei chamar as pessoas que passavam do outro lado da rua, mas era muito longe, não me ouviriam.

“E agora? O que eu faço?”

Caminhei de um lado para o outro sem saber o que fazer. A noite caiu e ficava cada vez mais escura. A única solução que me veio à cabeça era sentar e aguardar até o amanhecer. Talvez conseguisse sair de lá no dia seguinte.
Sentei-me na grama, que já estava úmida devido ao sereno da noite. Tentei me distrair com algo. Não dava. Não conseguia pensar em outro coisa além de sair dali. Comecei a ficar assustada, um desespero que era longínquo se apossou de minha mente fazendo-me pensar no pior.
Levantei-me, voltando a caminhar por entre o parque. O interesse em desfrutar das maravilhas daquele lugar já não era mais o mesmo. Sentia medo.
Procurei um lugar onde eu pudesse dormir. Pequenos barulhos eram suficientes para me aterrorizar. Segui em direção a uma pequena árvore que dava cobertura a um banco revestido por concreto. Estiquei meu avental e me deitei. Ainda sem conseguir dormir, tentava ignorar os sons estranhos que emitiam os animais noturnos.
Pedia, implorava para o tempo passasse logo, mas percebia lentidão. Vasculhei minha bolsa em busca de algo para comer. Haviam apenas os biscoitos que rejeitei no café. Procurei algo que pudesse me distrair naquela noite escura e assustadora. O celular, sem sinal; O rádio, descarregado. Tinha um livro também, mas impossível ler naquela escuridão. Sentia frio. A preocupação me invadia o interior.
01h30 da madrugada. Eu tinha sono. Me deitei no banco, ansiosa para que chegasse o dia seguinte. Felizmente adormeci.
Não tive uma noite boa; me mexia e remexia de um lado para o outro. Concreto não era nem de longe um lugar confortável para se dormir. Mas eu não tinha opção.

06h00 da manhã, 13/11/05. Já estava claro. O celular dentro da minha bolsa despertou, indicando meu horário de sair para trabalhar. Quando me dei conta, não estava em casa. Peguei minhas coisas e saí em disparada para a entrada do parque. Para a minha tristeza, não avistei ninguém. Nem carros passando na via a frente. Não havia sequer algum guarda que costumava rondar por ali àquela hora. Ninguém! Claro... era feriado. Dia de pessoas dormirem até tarde. Ninguém sairia de casa antes das 10h00. Céus!

Sentia dor por todo o corpo. Punha-me a pensar em algum jeito de sair dali. Olhei para o portão. Alto demais. Nem as árvores conseguiriam me levar até lá em cima. Entristeci. não havia outro jeito, a não ser esperar.
Avistei uma pequena trilha, a qual não tinha visto antes ou notado quando entrei naquele parque. Aproximei-me e encontrei uma placa. Estava embaçada, era impossível ler o que havia escrito. Três pontos de exclamação apenas visíveis. Não dei importância. Segui-a em frente. Não constei nada de novo... Apenas árvores, árvores e árvores. Estranho. Aquela parte do parque não era como as outras.
Aproximei-me rapidamente do lugar. Via manchas vermelhas nos troncos que havia no chão.
“O que poderia ter acontecido?”
Havia objetos espalhados: um diário, um par de sapatos, canetas, um espelho, e um celular sem bateria. Aqueles pertences foram deixados ali por alguém. Mas quem?
Aquela era uma área reservada do parque; talvez a placa estivesse querendo nos alertar sobre isso. Havia manchas nos objetos também. Peguei o diário e abri-o rapidamente. Ao mesmo tempo, senti um vento forte bater e me arrepiar inteira.
Apanhei o restante dos objetos que estavam no chão. Comecei a ouvir ruídos estranhos. Pensei que fosse o meu estomago, me enganei. Eles continuavam... e me assustavam. Peguei o caminho de volta, deixando aquela trilha para trás.
Ao passar em frente a entrada do parque, ainda não avistei ninguém. Já era 08h00 e nada.
Sentei-me na grama, curiosamente abri o diário. Pelo que via, era de uma adolescente. “Mas por que ela o esqueceria justo aqui?”, pensei.  Li com atenção e algo nas ultimas páginas fez um fio de medo percorrer meu corpo.
Ali constava que a adolescente esteve presa naquele parque durante três meses. E acompanhava a seguinte frase: “Cansei de esperar por ajuda. 13/01/06”.

“Céus, é recente! Onde estará ela agora? Estará viva?”. Levei minhas mãos ao rosto, sentindo uma vontade imensa de chorar.
10h45 e as ruas estavam desertas. Parecia não haver mais ninguém daquele lado da cidade. Região vazia! Comecei a perder as esperanças e pensar no pior, como vinha fazendo. Por um instante, deixei o diário de lado. O espelho!  Estava quebrado e também com manchas vermelhas. Atrás, a frase: “Já esperei demais. 20/04/06”.
O sapato, sujo, com as mesmas manchas vermelhas. Em sua borda, a mensagem: “Fui vitima de esquecimento. 27/07/06”.
Canetas... apenas sujas. Já não pegavam mais quando as testei. Celular, totalmente sem bateria. Não ligava mais. Atrás, encontrei a seguinte frase e data: “Fiz uma chamada de emergência, mas não fui atendido. 30/10/06”.
Tudo passou como um rápido flashback em minha cabeça. Com esses objetos em mãos, depois de tê-los analisado, pude ter certeza de quatro coisas: Primeira: mais de duas pessoas já estiveram presas aqui nesse parque; Segunda: essas manchas vermelhas... nada de tinta, era sangue seco, deixado pelos donos dos objetos antes de suas supostas mortes;
Terceira: estas canetas serviram apenas para deixar gravado suas frases e o ultimo dia de suas vidas; Quarta: EU FUI ESQUECIDA!

Agora eu entendia o porquê de tudo aquilo... Não tinha mais motivos para continuar ali... numa espera que nunca seria correspondida.

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Passaram-se três meses. O guarda responsável pela ronda trimestral voltou novamente para checar todo o local. Coisa que ele passou a fazer após o fechamento definitivo do parque. E conforme sua busca encontrou objetos espalhados por toda a entrada da trilha proibida para visitantes.  Entre cada um deles, mensagens com suas respectivas datas:

No diário: “Cansei de esperar por ajuda” – 13/01/06;
Espelho: “Já esperei demais” – 20/04/06
Celular: “Fiz uma chamada de emergência, mas não fui atendido” – 27/07/06
No sapato: “Fui vítima de esquecimento” – 30/10/06
E por último, no avental: “Cansei de esperar por ajuda, já esperei demais. Precisei de uma chamada de emergência, mas não fui atendida. Fui vitima de esquecimento... assim como todos eles” – 10/01/07.

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