O começo de tudo.

No início... Bem no início de minha caminhada, me fora apresentada uma tal de leitura. Me enrolei em seus sentidos, e debruçada diante de todas as brilhantes maravilhas que me proporcionava, eu me mantive. Quando senti, longinquamente o consciente exigir mais, me ergui e me pus a desbravar um mundo de curiosidades. Tropecei em uma técnica de expressão chamada escrita. Desde então, passei a aderi-la.
Foi quando decidi, obstinadamente, que esta deveria ser o meu refúgio particular. E de lá para cá, confesso, venho realizando descobertas inimagináveis. A prática contínua da escrita, me fez adentrar e conhecer mundos dos mais variados tipos que existem. Só então percebi que não se pode limitar a imaginação. É tudo muito maior do que se parece. E abusando disto que chamo de dom, cheguei à seguinte conclusão: Ler, não é somente adquirir conhecimento; Escrever, é mais do que dar rumo ou designar acontecimentos, é possuir o controle do mundo e ter o poder de fazer deste, o que quiser.

terça-feira, 12 de junho de 2012

E então a hora da despedida chegou...

Era tarde nublada. A avenida principal estava coberta pela impaciência dos pedestres apressados.
Para onde eu ia? Não sei dizer. 
Ficar parada, completamente refestelada frente a estação ferroviária certamente me parecia uma ótima ideia. Ainda assim, eu tinha a opção de correr, desesperar-me no meio daquela multidão desgovernada que rumava... quase sem rumo pelas ruas sinuosas. 
Mas... naquele momento, exatamente naquele momento, eu não queria fazer o mesmo. E eu devaneava enquanto me fazia observar tudo e a todos. Quantas pessoas... e cores... e carros!... Os edifícios começavam a acender suas luzes. Os faróis dos automóveis, os semáforos...outdoors. Tanto brilho! Tudo muito cheio de vivacidade. 
Pelas calçadas... os senhores da rudeza; os jovens despreocupados... inconstantes... ora desalentados. Ao meu lado - bem no canto da esquerda -, uma cabine telefônica cujos vidros encontravam-se inteiramente rabiscados; À minha direita, mais a frente, um ponto de táxi bem miúdo. E sob uma banqueta velha, um senhor a me observar. Longinquamente retraído, aparentemente solitário. Não muito diferente de mim. 
O que eu fazia ali? Não sei. O que exatamente eu via ali? Não sei. O que eu procurava ali? De novo: não sei.
Não sabia, mas me tornei uma deles. Uma pobre coitada, sem rumo... e naquele momento, sem nada além de um maço de cigarro quase vazio no bolso do jeans apertado que vestia. 
Eu também estava vazia. Mas quem iria saber?
Tudo o que eu vinha fazendo era sentir falta. Tudo o que eu vinha sendo - além de sozinha - pior! - era solitária. 
Lembro-me agora: fechei os olhos e perdi-me em simultâneo no tempo. Dessa vez, mantive-me concentrada... que loucura! Meus devaneios sempre implacáveis! Lembranças resgatadas de momentos que se foram... imaginações antes de tudo ingênuas. Iam e vinham, e quando chegavam, me atordoavam. 
E como num passe de mágica, elas tornaram-se mais nítidas. Espere!... Não era apenas imaginação.
Eis que surgiu... diante do túnel... perdida? Espere!... não... não podia. Uma miragem?
Não, era real... tinha de ser ela!
Deixei que o cigarro queimasse e rolasse pelos meus dedos compridos e gelados até que caísse no chão.
Eu observava... atônita, sedenta. Eu não poderia estar enganada! Não podia estar! Depois de tanto tempo?
Felicidade... medo... insegurança. Saudade: isso! Era o que eu mais sentia.
O semáforo parado. Ela me deu as costas. Falava no celular... impaciente. 
Será?

Ei... você aí! — chamei em voz alta.

Aproximei-me. Em meio a multidão, minha voz tornou-se inatingível aos seus ouvidos.
Será?
Um virou-se. Outro virou-se e finalmente... sim, era ela! Mas como?
Nunca imaginei que pudesse de novo observá-la tão de perto. Minha nossa! Aqueles olhos... os lábios delicados... nada naquela face serenamente esbranquiçada mudou. Ela estava... estava...

— Atrasada! Muito atrasada! — ela declarou sem ao menos olhar para mim. 

— Eu só quero ter certeza... — sussurrei, aproximando-me dela, que se mostrava inquieta. 

De imediato ela se virou, encarando-me. Parecia assustada. Imediatamente o celular que segurava encontrou o chão. A bolsa que segurava teria caído se eu não a tivesse segurado.

— O que? Como isso é possível? — fitando-me os olhos, ela enrubesceu. 

Céus! Como sentia falta daqueles olhos... daqueles lábios... daquelas mãos delicadas que se mantiveram presas às minhas enquanto segurávamos juntas a alça da bolsa cujo couro vermelho escolhemos em nosso primeiro aniversário de namoro. Como sofri com sua ausência! 

— Por onde tem andado todo esse tempo? 
Porque sumiu de mim?

— Estive há pouco fora da cidade. — ela esquivou-se, puxando o que lhe pertencia. 

Aquele gesto fez-me sentir a pior e mais sombria das sensações, um medo de que ela se perdesse no meio daquele conglomerado e fosse de vez para longe, fugindo completamente do meu alcance... da minha vida.

— O que acha de... você e eu... de repente... conversarmos... Nós poderíamos tentar de novo. 

E no lugar daquele olhar que enxera-me sempre de ternura, pude enxergar vagas expressões de angústia. 

E antes de virar-se contra mim, ela disse: — Não dá. Não mais. 

— Espere... — fechei meu punho em seu braço. Meus olhos tornaram-se turvos, embaçados por um lacrimejar importuno. — Acabou?

Prendi suas mãos nas minhas. Fitei aqueles olhos que pouco a pouco iam revelando-me a verdade que eu não estava pronta para saber, não queria de maneira alguma ouvir, mas que, sob as piores dores, precisava.
Fechei os olhos, inalando o aroma suave que exalava sua pele. Acariciando-a de leve, mirei os olhos que costumavam me observar todas as noites e começava a preparar-me emocionalmente para deixar de uma vez aquele contato desmerecido que eu estava tendo com quem mais soube amar na vida. 

— Há muito tempo. — ela disse, tão firme como nunca. Prendeu minha mão e suavemente beijou-a. — Adeus. — e então despediu-se.

Qualquer coisa poderia tê-la impedido de dizer aquilo. Mesmo depois de todas as vezes que a deixei, sim, eu poderia. Mas não sabia disso até aquele momento. 

Soltei-a. Perdi a consciência. Senti, como nunca antes, meu coração ser decepado. Uma dor incabível... irrevogável. Não ouvia... quase nada sentia. Simplesmente a seguia com o olhar enquanto se afastava. Indo... indo para longe de mim. E dessa vez, para sempre, talvez, como da última vez.

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